Meu amado pai,
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Brasil com Z
Que Tem a Carta de Mbiracê
Meu amado pai,
Hoje faz muito sol que aqui é aí. Meu marido está em frente de mim escrevendo também uma carta para o senhor porque há novidades e ele as vai contar. Vou achando tudo aqui muito curioso mas não acerto com isso de comer com fargos. Quando chegamos ri muito de ver tatna gente de cara barbada mas o que mais me espantou foram homens e mulheres que são cobertos de uma tintura preta e estes servem os que têm a cara pálida e todos andam sempre com roupa mesmo quando há calor e isso me parece muito muito tolo. Os homens daqui têm apensa uma esposa e desconfio que fazem assim porque são fracos e não conseguiram agradar a duas mulheres. São muito bonitos de se ver uns veados sem chifres que há por cá e nos quais os homens vão montados. Seu nome é cavalos e têm de diferente dos nossos veados rabos mais compridos e um cabelo repartido que cai pelo pescoço a que chamam crinas. Animais também engraçados são uns que chamam touros que são grandes como duas antas juntas e têm cornos em forma de meia-lua e às vezes os naturais os soltam em caminhos estreitos e põem-se a correr na frente deles e isto me parece pouco pouco inteligente pois se têm medo deles não deviam soltar. Há algumas ocas muito muito grandes e mais fortes que as nossas e há outras pequenas onde moram muitos e quando Tupã manda chuva de trovões elas desmancham. Aqui há poucas poucas árvores e acho que é por isso que levam tantos arabutãs de nossa terra. Já gente há muita como se fosse dez ou mais de nossas tabas. O cheiro desse lugar é tão ruim quanto o do naritataca e há umas mulheres que ficam num lugar chamado Ribeira e recebem moedas para se deitarem com os homens e isto deve ser muito bom porque variam o marido e ainda ganham por isso. Perguntei a Francisco se poderia ficar com elas e ele gritou-me e disse que nunca mais pedisse uma coisa dessas mas não entendi por quê.
Tenho mais para contar, mas faço isso outro dia. minha barriga dói de tanta vontade ver minha mãe e Sarapopeba e Nhengatã e Jababa.
Da sua filha preferida,
Mbiracê
*Texto extraído do livro Terra Papagalli, de José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta
sexta-feira, 18 de junho de 2010
J.S.
"O egoísmo, geralmente tido por uma das atitudes mais negativas e reprováveis da espécie humana, pode ter, em certas circunstâncias, as suas boas razões." J. Saramago
*A data da postagem foi alterada para aqui ficar gravada a data de falecimento desse amado mestre
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terça-feira, 22 de setembro de 2009
Déjà vu
Conceitos
Texto
O texto é têxtil
Se você erra a costura
Ele perde a formosura
Poesia
Para definir poesia
Não falo com o coração
Mas sim com as palavras desta citação:
"O amor nunca morre de fome, mas de indigestão"
Vida
A vida são os vetores
Você calcula os valores
E aplica a força resultante
O resultado... guarda na estante
Morte
Medo de morte não há
O que se tem é medo de não estar
De não mais tragar desse mundo o odor amargo
Obrigado, Saramago
Conceito
O conceito de conceito não é aceito
Alguém arranje-o um conserto!
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terça-feira, 28 de julho de 2009
Conto dos outros
A Aventura de um Esposo e uma Esposa*
O Operário Arturo Massolari fazia o turno da noite, aquele que termina às seis. Para voltar para casa, percorria um longo trajeto, de bicicleta na estação boa, de bonde nos meses chuvosos e frios. Chegava entre as seis e quarenta e cinco e as sete, ou seja, às vezes um pouco antes, às vezes um pouco depois de tocar o despertador da mulher, Elide.
Freqüentemente os dois ruídos, o toque do despertador e o passo dele entrando, se superpunham na mente de Elide, alcançando-a no fundo do sono, o sono compacto da manhãzinha que ela ainda tentava espremer por alguns segundos com o rosto enfiado no travesseiro. Depois pulava fora da cama de uma vez só e já ia metendo os braços às cegas no roupão, com os cabelos por cima dos olhos. Aparecia assim para ele, na cozinha, onde Arturo tirava os recipientes vazios da bolsa que levava consigo para o trabalho — a marmita, a garrafa térmica — e os punha em cima da pia. Já havia acendido o fogão e posto o café no fogo. Mal ele a olhava, Elide sentia vontade de passar a mão pelos cabelos, de arregalar à força os olhos, como se a cada vez se envergonhasse um pouco dessa primeira imagem que o marido tinha dela ao entrar em casa, sempre assim desarrumada, com a cara meio adormecida. Quando dois dormem juntos é outra coisa, encontram-se de manhã a emergirem juntos do mesmo sono, estão em pé de igualdade.
Já às vezes era ele que entrava no quarto para despertá-la, com a xicarazinha de café, um minuto antes que tocasse o despertador; então tudo era mais natural, a careta para sair do sono ganhava uma espécie de suavidade preguiçosa, os braços que se erguiam para estirar, nus, acabavam cingindo o pescoço dele. Abraçavam-se. Arturo trazia no corpo a jaqueta impermeável; sentindo-o próximo, ela percebia o tempo que estava fazendo: se chovia ou havia bruma ou neve, dependendo de como ele estava úmido e frio. Mas assim mesmo dizia: “Que tempo está fazendo?”, e ele iniciava seu costumeiro resmungo meio irônico, passando em revista os incômodos que tinha atravessado, começando pelo fim: o percurso de bicicleta, o tempo que encontrara ao sair da fábrica, diferente daquele de quando lá entrara na noite anterior, e as encrencas no serviço, os boatos que corriam na seção, e assim por diante.
Àquela hora, a casa estava sempre pouco aquecida, mas Elide se despia toda, um pouco arrepiada, e se lavava, no pequeno banheiro. Atrás vinha ele, com mais calma, também se despia e se lavava, lentamente, tirava de cima a poeira e a graxa da oficina. Assim, estando ambos em torno da mesma pia, meio nus, um pouco enregelados, de vez em quando se dando esbarrões, tirando um da mão do outro o sabonete, o dentifrício, e continuando a dizer as coisas que tinham para se dizer, era o momento da intimidade, e às vezes, acontecendo de se ajudarem mutuamente a esfregar as costas, insinuava-se uma carícia, e se encontravam abraçados.
Mas de repente Elide: “Meu deus! Que horas já são!”, e corria para meter as ligas, a saia, tudo com pressa, em pé, escovava os cabelos para cima e para baixo, e debruçava o rosto para o espelho da cômoda, com os grampos seguros entre os lábios. Arturo vinha atrás dela, havia acendido um cigarro, e olhava para ela em pé, fumando, e a cada vez parecia um pouco embaraçado, de ter que ficar ali sem poder fazer nada. Elide estava pronta, enfiava o casaco no corredor, davam-se um beijo, abria a porta e já se ouviam seus passos que desciam a escada correndo.
Arturo ficava sozinho. Acompanhava o ruído dos saltos de Elide degraus abaixo, e quando não a ouvia mais continuava a acompanhá-la em pensamento, aquele passo miúdo, rápido pelo pátio, o portão, a calçada, até o ponto do bonde. Já o bonde se ouvia bem: guinchar, parar, e o bater do estribo a cada pessoa que subia. “Pronto, tomou”, pensava, e via a mulher se segurando no meio da multidão de operários e operárias no “Onze” que a levava para a fábrica como todos os dias. Apagava o cigarro, fechava os postigos das janelas, fivava escuro, metia-se na cama.
A Cama estava como Elide a deixara ao se levantar, mas do lado dele, Arturo, estava quase intacta, como se tivesse sido arrumada naquele momento. Ele se deitava de seu próprio lado, como devia, mas depois esticava uma perna para lá, onde havia ficado o calor da mulher, em seguida esticava também a outra perna, e assim pouco a pouco se deslocava todo para o lado de Elide, naquele nicho de tepidez que ainda conservava a forma do corpo dela, e afundava o rosto em seu travesseiro, em seu perfume, e adormecia.
Quando Elide voltava, à noite, Arturo já havia um tempo rodava pela casa: tinha acendido a estufa, posto alguma coisa para cozinhar. Certos trabalhos ele é que fazia, naquelas horas antes do jantar, como arrumar a cama, limpar um pouco a casa, até pôr de molho as roupas para lavar. Elide depois achava tudo malfeito, mas ele para dizer a verdade não se empenhava muito: o que fazia era apenas uma espécie de ritual para esperar por ela, quase um vir a seu encontro permanecendo entre as paredes da casa, enquanto lá fora se acendiam as luzes e ela passava pelas vendas no meio daquele movimento fora de hora dos bairros onde há tantas mulheres que fazem compras à noite.
Afinal, ouvia o passo pela escada, bem diferente daquele da manhã, agora mais pesado, pois Elide subia cansada do dia de trabalho e carregada de compras. Arturo saía no patamar, tirava da mão dela a sacola, entravam conversando. Ela se jogava numa cadeira na cozinha, sem tirar o casaco, enquanto ele ia tirando as coisas da sacola. Depois: “Coragem, um pouco de ordem”, ela dizia, e se erguia, tirava o casaco, punha uma roupa de casa. Começavam a preparar a comida: jantar para os dois, depois a marmita que ele levava para a fábrica para o intervalo da uma da madrugada, o lanche que ela devia levar para a fábrica no dia seguinte, e o que era para deixar pronto para quando ele acordasse no dia seguinte.
Ela um pouco se atarefava, um pouco se sentava na cadeirinha de palha e dizia a ele o que tinha de fazer. Já ele, era a hora em que estava descansado, agitava-se, aliás, queria fazer tudo, mas sempre um pouco distraído, com a cabeça já em outra coisa. Naqueles momentos ali, chegavam por vezes a ponto de se magoarem, de se dizerem palavras pesadas, porque ela queria que ele estivesse mais atento ao que estava fazendo, que se empenhasse mais, ou então que fosse mais ligado a ela, ficasse mais perto, que a consolasse mais. Enquanto ele, passado o primeiro entusiasmo da volta dela, já estava com a cabeça fora de casa, fixado no pensamento de fazer tudo com pressa porque tinha que ir.
Arrumada a mesa, postas todas as coisas prontas ao alcance da mão para não precisarem mais se levantar, então era o momento da angústia que tomava conta dos dois por terem tão pouco tempo para estarem juntos, e quase não conseguiam levar a colher à boca, da vontade que sentiam de ficar ali segurando a mão um do outro.
Mas o café não havia acabado de passar e já ele estava atrás da bicicleta vendo se estava tudo em ordem. Abraçavam-se. Arturo parecia que só então reparava como era macia e tépida sua esposa. Mas punha no ombro o quadro da bicicleta e descia atento as escadas.
Elide lavava os pratos, examinava a casa de cima a baixo, as coisas que o marido tinha feito, sacudindo a cabeça. Agora ele estava correndo pelas ruas escuras, entre os raros faróis, talvez já estivesse depois do gasômetro. Elide ia para a cama, apagava a luz. De seu próprio lado, deitava, espichava um pé em direção ao lugar do marido, para procurar o calor dele, mas toda vez reparava que onde ela dormia era mais quente, sinal de que Arturo também havia dormido ali, e isso despertava nela uma grande ternura.
*(Italo Calvino – Os amores difíceis (Gli amori difficili)
** A brincadeira com a foto é por dois motivos:
1. Vi Os Incríveis hoje pela terceira ou quarta vez, e é um filme sensacional.
2. Aquela ondinha de se dizer que o que é comum é excepcional, e vice-versa. Porque o conto, para mim, é excepcional de tão simples, de tão ordinário.
sexta-feira, 24 de julho de 2009
Dia 24/07/09
A Quatro Estações
Sentou e acendeu o último cigarro da carteira.- You know, John, I like classical music. Vivaldi, Le Quattro Stagioni. Do you know this one?
Do outro lado, a voz, ainda desconhecida para nós, tinha um sotaque... latino. Mexicano, talvez?
- I don’t know, patrón. Perdón, I don’t know.
- Oh, that’s bad, John. That’s really pitiful… I was hoping we could hear it together while enjoying some scotch and smoking a good Cuban cigar one of this days. You’ve already did smoke a Cuban cigar, didn’t you, John?
- I am sorry, patrón. I never did. Never did, patrón…
- Hmm… you’re Cuban, right?
- Sí, patrón. Soy cubano.
- So I’ll ask you once again: where the fuck is Jorge hiding? ‘Cause he owes me. And he is Cuban like you. And I really can’t tell the difference between two fucking Cubans, I only know they smell like the shit they had to sleep with while illegally travelling to my country to stole my money. So, you know, I could misunderstand you and Jorge and start to charge you my money instead of him. And I think you wouldn’t find this bueno… vale?
- No, patrón, I would not. Pero…
- Oh, motherfucking Jesus, give the guts not to kill this fucking false Spanish right now. I want a reason why shouldn’t I fucking turn on that blowpipe and stuck it in your ass NOW!
- No, patrón!
- And stop calling me patrón! Just fucking sing to me! Come on!!
- I could not tell you, pat… señor, pero Marco knows. I can get you to Marco and we…
- Shut up. Flint, take this poor man outta my sight. And, please, don’t let him soil the room with his Spanish shit or piss. Do it clean this time.
Ao apagar o cigarro, Larry pensou que algo estava realmente errado. Cada homem que ele interrogava indicava o último homem interrogado (e, obviamente, morto). Eles sabiam o que acontecia naquele galpão. Sabiam, e mesmo assim não fugiam, deixavam-se ser capturados, torturados e mortos sem dizer uma palavra. Estava numa sinuca de bico. Se continuasse, teria que erradicar toda a comunidade cubana residente em São Francisco. Mas não podia deixar um canalha escapar sem pagar o que deve. Nunca fez isso. Era hora de tomar uma decisão, hora de entrar de cabeça no ramo do qual ele sempre fugiu. Tinha de assumir o controle da cidade. No fim das contas, era mesmo hereditário. Acendeu um charuto cubano, também o último da carteira. Telefonou para a esposa e cancelou o jantar com o vereador. Subiu no trem e calculou o tempo até a quarta estação depois daquela. Ligou o ipod. Precisava de um pouco de Vivaldi. Não só porque não queria escutar os gritos de dor do maldito cubano, realmente não era mais tão irritante assim depois de tantos outros. Mas para ajudá-lo a se acalmar. É preciso muita calma e sangue frio antes de olhar nos olhos e atirar bem no meio da cabeça do homem a quem você chama de “pai”.
sexta-feira, 19 de junho de 2009
Reportagem Especial
Copa Paulo Francis de Futebol e Jornalismo
Evento mistura a paixão nacional do brasileiro e a paixão profissional de estudantes de jornalismo da UFPE, garantindo boas risadas e interação na Universidade
Por Diogo Madruga
Há uma lenda que diz que todo jornalista, esportivo ou não, é perna de pau. Os que seguem o jornalismo esportivo seriam os piores, pois seriam jogadores de futebol frustrados. A outra parte dessa lenda conta que, por serem “perronhas”, são os jornalistas quem mais se divertem jogando futebol, pois conseguem imaginar como estariam registrando todo aquele “show de horrores” dentro de campo, diferente da “monotonia” de jogos de futebol profissional. Há 7 anos, um grupo decidiu tornar essa lenda pública. Reuniram-se os estudantes de jornalismo da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e montaram uma copa de futebol society. O nome, no mínimo, é irônico: Copa Paulo Francis. À época, a votação ficou entre Francis e Carlos Lacerda, figuras tão polêmicas quanto eles queriam que fosse a Copa. Porém, o diferencial era, e ainda é, o bom humor.
Regada a cerveja gelada (outra paixão dos jornalistas), futebol de qualidade duvidosa e, sempre, muito bom humor, a Copa Paulo Francis (CPF) deu certo. Primeiramente, porque futebol é a inquestionável paixão nacional. Em segundo lugar, porque solucionava um absurdo comum em cursos universitários, mas que não podia ser aceito em Comunicação Social: a falta de interação entre os períodos. E, por último, porque, além de futebol e interação social, a CPF treinava os “peladeiros” para serem bons jornalistas, sempre incentivando a produção de matérias, artigos de opinião, todo tipo de material jornalístico de cobertura do evento, tudo isso postado no blog da Copa. “É muito gratificante chegar a esse sétimo ano de Copa, e ver que aquilo que começou sem esperanças de vingar tornou-se o que é hoje. Vocês não podem deixar que isso morra, principalmente o que há de melhor na Copa, que é essa interação entre os estudantes. Quem se forma em jornalismo sabe como são necessários contatos no mundo lá fora”, declarou Felipe (Salgado) Pequeno, primeiro presidente da Copa Paulo Francis, em 2003, em discurso proferido na cerimônia de encerramento da CPF deste ano de 2009.
A propósito, este foi um ano especial para a Copa Paulo Francis, segundo os antigos participantes dela. “Foi o primeiro ano em que nenhum dos times que jogou estava na primeira edição da Copa, isso mostra o valor que adquiriu, mostra que meu filho cresceu”, ressalta Pequeno. Também neste ano, a organização trabalhou duro para divulgar a Copa, conseguindo bons resultados, como um espaço antes da abertura e outro antes das finais do evento na coluna do profissional homenageado do ano na CPF: Fernando Menezes, do Jornal do Commercio. Além da tão ressaltada menção no programa Conexão Manhattan, do canal televisivo GNT, um programa estilo mesa redonda famoso por ter participantes como Diogo Mainardi, Lucas Mendes e o próprio Paulo Francis, quando era vivo. “Eu e Luiz Felipe [Coordenador Geral da CPF] elaboramos o e-mail e mandamos sem pretensões para o programa, no mesmo tom de bom humor e brincadeira de sempre e, quando vimos, estava lá sendo lido. Foi, pra mim, uma conquista e tanto.”, confessa Gustavo Maia, nomeado em 2009 vice-presidente da Copa, e goleiro do PDF.
Aliás, é curiosa a criatividade dos estudantes para formar os nomes dos times. A regra é a seguinte: os times devem ser formados de uma sigla de três letras, que não represente posição política, insulto a qualquer tipo de religião ou posição política nem xingamento. Times como MSN (referência ao programa da Microsoft de bate-papo na internet) e ETC (igual à abreviação usado no Brasil da expressão latina et Cetera) já figuraram entre os nomes. Outros faziam clara referência à paixão etílica dos jornalistas, o MAA (Movidos a Álcool) e o VTU (Vamos tomar uma?) são bons exemplos. Atualmente, em cada Copa jogam 6 times, ou seis períodos. Os presentes na edição deste ano eram o VTU (recém-formados e atrasados), ETC (9º período), BAU (7º período), PDF (5º período), RYU (3º período) e RUN (1º período).
No blog da Copa é possível acompanhar resenhas, atualizações dos resultados, fotos e vídeos das rodadas. Tudo isso perpassado por um humor e um sarcasmo digno do próprio Paulo Francis. Para os alunos, o valor da Copa é inestimável. Envolvem-se de tal forma que não falam em outra coisa pelos corredores do Centro de Artes e Comunicação (CAC) da UFPE. “Eu não imaginava que era um evento tão sério quando entrei. Mas já estou vendo que é um tradição muito defendida e valorizada no curso. Mais uma boa novidade para quem está entrando agora.”, comenta Felipe Resk, calouro e atacante do RUN.
Final 2009
A sétima edição da Copa Paulo Francis foi uma das mais disputadas e cheias de novidades. Foram 120 gols marcados em 17 jogos, uma média impressionante de 7 gols por partida. Nenhum empate ocorreu e o artilheiro da competição teve 17 gols marcados em 6 jogos. Nós estivemos na eletrizante final da Copa Paulo Francis 2009, (ocorrida no último dia 6 de junho) e fizemos a cobertura do evento.
Realizada, neste ano, na Academia do Gol, em Boa Viagem, a CPF 2009 contou com boa presença tanto dos jogadores quanto das torcidas de cada período. A rodada final, com cerimônia de encerramento marcada para logo depois, começou às 16h, com a disputa pelo terceiro lugar da Copa, realizada entre BAU e RYU. Apesar do fairplay demonstrado inicialmente, com o RYU abdicando de um jogador para se igualar ao BAU, que tinha o time incompleto por motivos de atraso do seu goleiro, o jogo não deixou de ser pegado, disputado com muita vontade por ambos os times. O RYU abriu rapidamente vantagem de 2x0, embalado pela maciça e barulhenta torcida que sempre o acompanha. No segundo tempo, com ambos os times completos, o BAU conseguiu a virada, ampliando ainda para 4x2. No final do jogo o RYU diminuiu mais uma vez, fechando em 4x3 o placar final. Bronze para o BAU.
Logo depois, a tensa final. Mas não a final da CPF, e sim da CPP. É a Copa Patrícia Poeta, criada pelos alunos e alunas a fim de dar espaço também para as jornalistas atletas. O 3º período marcou presença também nesse jogo, com as Chun Lis do RYU (brincadeira criada devido a dois personagens de um jogo de vídeo game) disputando o bicampeonato contra as estreantes do RUN. Pra quem pensa que futebol é coisa de homem, o jogo prendeu a atenção até de quem não estava na Academia do Gol pela Copa. Após abrir vantagem de 2x0, as calouras pareciam dominar o jogo, mas no fim da partida as Chun Lis diminuíram e, num pênalti no último minuto de jogo, empataram em 2x2. Na disputa de pênaltis, o placar foi de 2x0 para as Chun Lis, que se consagraram bicampeãs da Copa Patrícia Poeta.
Grande Final
O brilho da final feminina não ofuscou a expectativa pela final masculina. Embalados por uma impecável campanha, os jogadores do PDF entraram em campo com todos os números ao seu favor. O artilheiro do campeonato, com 14 gols; a média do melhor ataque do campeonato — de 5 gols por partida —; a melhor defesa com apenas 13 gols sofridos; e 100% de aproveitamento, mantendo-se líder da Copa desde o seu início. Contra isso tudo estavam os calouros do RUN, que garantiram presença nas duas finais da edição 2009. O time estreante surpreendeu ao alcançar esse feito. Nunca antes um time de calouros chegara à final. Mas toda as dúvidas foram sanadas, e toda a expectativa foi quebrada ao soar do apito.
Não demorou muito. Antes da metade do primeiro tempo, o PDF já passeava em campo. Desta vez, o placar inicial de 2x0 não acordou o time adversário, só abriu espaço para mais gols. O placar final do jogo foi de um incrível 8x1, chocolate bem aplicado, com competência na marcação e força no ataque. O PDF sagrou-se campeão da Copa Paulo Francis pela primeira vez, e comemorou bastante. Veja os cinco gols marcados no segundo tempo do jogo:
Como toda competição, a CPF também premia os melhores jogadores e os times campeões. Entretanto, como já dito, bom humor é um dos combustíveis desse evento, e premiações como a de Muso e Musa da Copa, além da polêmica medalha de “chiliquento” dão o tom na cerimônia de encerramento. Além disso, em referência à comunidade acadêmica, onde os futuros jornalistas aprendem o que põem em prática no blog, todo ano há uma homenagem também a um professor do Departamento de Comunicação da UFPE. Neste ano, o nome escolhido foi o do professor José Mário Austragésilo, Chefe do Departamento, que também compareceu à final e à cerimônia de encerramento.
Durante os seis sábados de realização da Copa, os alunos de Jornalismo põem de lado o estresse diário que enfrentam nos estágios e na faculdade, e entregam-se de corpo e alma a esse que já é um ritual de sete anos de duração. Iniciativa que deveria ser seguida, não à risca, por muitos outros cursos da UFPE, pois nada mais construtivo do que aliar obrigação e devoção, ainda mais quando isso garante a união de futuros concorrentes do mercado de trabalho.
*Créditos à organização da CPF, por disponibilizar fotos do arquivo da CPF
**Esta reportagem foi um trabalho realizado para a cadeira Tópicos em Jornalismo Digital, ministrada pelo professor Diógenes de Luna, no curso de Jornalismo da UFPE
Regada a cerveja gelada (outra paixão dos jornalistas), futebol de qualidade duvidosa e, sempre, muito bom humor, a Copa Paulo Francis (CPF) deu certo. Primeiramente, porque futebol é a inquestionável paixão nacional. Em segundo lugar, porque solucionava um absurdo comum em cursos universitários, mas que não podia ser aceito em Comunicação Social: a falta de interação entre os períodos. E, por último, porque, além de futebol e interação social, a CPF treinava os “peladeiros” para serem bons jornalistas, sempre incentivando a produção de matérias, artigos de opinião, todo tipo de material jornalístico de cobertura do evento, tudo isso postado no blog da Copa. “É muito gratificante chegar a esse sétimo ano de Copa, e ver que aquilo que começou sem esperanças de vingar tornou-se o que é hoje. Vocês não podem deixar que isso morra, principalmente o que há de melhor na Copa, que é essa interação entre os estudantes. Quem se forma em jornalismo sabe como são necessários contatos no mundo lá fora”, declarou Felipe (Salgado) Pequeno, primeiro presidente da Copa Paulo Francis, em 2003, em discurso proferido na cerimônia de encerramento da CPF deste ano de 2009.
A propósito, este foi um ano especial para a Copa Paulo Francis, segundo os antigos participantes dela. “Foi o primeiro ano em que nenhum dos times que jogou estava na primeira edição da Copa, isso mostra o valor que adquiriu, mostra que meu filho cresceu”, ressalta Pequeno. Também neste ano, a organização trabalhou duro para divulgar a Copa, conseguindo bons resultados, como um espaço antes da abertura e outro antes das finais do evento na coluna do profissional homenageado do ano na CPF: Fernando Menezes, do Jornal do Commercio. Além da tão ressaltada menção no programa Conexão Manhattan, do canal televisivo GNT, um programa estilo mesa redonda famoso por ter participantes como Diogo Mainardi, Lucas Mendes e o próprio Paulo Francis, quando era vivo. “Eu e Luiz Felipe [Coordenador Geral da CPF] elaboramos o e-mail e mandamos sem pretensões para o programa, no mesmo tom de bom humor e brincadeira de sempre e, quando vimos, estava lá sendo lido. Foi, pra mim, uma conquista e tanto.”, confessa Gustavo Maia, nomeado em 2009 vice-presidente da Copa, e goleiro do PDF.
Aliás, é curiosa a criatividade dos estudantes para formar os nomes dos times. A regra é a seguinte: os times devem ser formados de uma sigla de três letras, que não represente posição política, insulto a qualquer tipo de religião ou posição política nem xingamento. Times como MSN (referência ao programa da Microsoft de bate-papo na internet) e ETC (igual à abreviação usado no Brasil da expressão latina et Cetera) já figuraram entre os nomes. Outros faziam clara referência à paixão etílica dos jornalistas, o MAA (Movidos a Álcool) e o VTU (Vamos tomar uma?) são bons exemplos. Atualmente, em cada Copa jogam 6 times, ou seis períodos. Os presentes na edição deste ano eram o VTU (recém-formados e atrasados), ETC (9º período), BAU (7º período), PDF (5º período), RYU (3º período) e RUN (1º período).
No blog da Copa é possível acompanhar resenhas, atualizações dos resultados, fotos e vídeos das rodadas. Tudo isso perpassado por um humor e um sarcasmo digno do próprio Paulo Francis. Para os alunos, o valor da Copa é inestimável. Envolvem-se de tal forma que não falam em outra coisa pelos corredores do Centro de Artes e Comunicação (CAC) da UFPE. “Eu não imaginava que era um evento tão sério quando entrei. Mas já estou vendo que é um tradição muito defendida e valorizada no curso. Mais uma boa novidade para quem está entrando agora.”, comenta Felipe Resk, calouro e atacante do RUN.
Final 2009
A sétima edição da Copa Paulo Francis foi uma das mais disputadas e cheias de novidades. Foram 120 gols marcados em 17 jogos, uma média impressionante de 7 gols por partida. Nenhum empate ocorreu e o artilheiro da competição teve 17 gols marcados em 6 jogos. Nós estivemos na eletrizante final da Copa Paulo Francis 2009, (ocorrida no último dia 6 de junho) e fizemos a cobertura do evento.
Realizada, neste ano, na Academia do Gol, em Boa Viagem, a CPF 2009 contou com boa presença tanto dos jogadores quanto das torcidas de cada período. A rodada final, com cerimônia de encerramento marcada para logo depois, começou às 16h, com a disputa pelo terceiro lugar da Copa, realizada entre BAU e RYU. Apesar do fairplay demonstrado inicialmente, com o RYU abdicando de um jogador para se igualar ao BAU, que tinha o time incompleto por motivos de atraso do seu goleiro, o jogo não deixou de ser pegado, disputado com muita vontade por ambos os times. O RYU abriu rapidamente vantagem de 2x0, embalado pela maciça e barulhenta torcida que sempre o acompanha. No segundo tempo, com ambos os times completos, o BAU conseguiu a virada, ampliando ainda para 4x2. No final do jogo o RYU diminuiu mais uma vez, fechando em 4x3 o placar final. Bronze para o BAU.
Logo depois, a tensa final. Mas não a final da CPF, e sim da CPP. É a Copa Patrícia Poeta, criada pelos alunos e alunas a fim de dar espaço também para as jornalistas atletas. O 3º período marcou presença também nesse jogo, com as Chun Lis do RYU (brincadeira criada devido a dois personagens de um jogo de vídeo game) disputando o bicampeonato contra as estreantes do RUN. Pra quem pensa que futebol é coisa de homem, o jogo prendeu a atenção até de quem não estava na Academia do Gol pela Copa. Após abrir vantagem de 2x0, as calouras pareciam dominar o jogo, mas no fim da partida as Chun Lis diminuíram e, num pênalti no último minuto de jogo, empataram em 2x2. Na disputa de pênaltis, o placar foi de 2x0 para as Chun Lis, que se consagraram bicampeãs da Copa Patrícia Poeta.
Grande Final
O brilho da final feminina não ofuscou a expectativa pela final masculina. Embalados por uma impecável campanha, os jogadores do PDF entraram em campo com todos os números ao seu favor. O artilheiro do campeonato, com 14 gols; a média do melhor ataque do campeonato — de 5 gols por partida —; a melhor defesa com apenas 13 gols sofridos; e 100% de aproveitamento, mantendo-se líder da Copa desde o seu início. Contra isso tudo estavam os calouros do RUN, que garantiram presença nas duas finais da edição 2009. O time estreante surpreendeu ao alcançar esse feito. Nunca antes um time de calouros chegara à final. Mas toda as dúvidas foram sanadas, e toda a expectativa foi quebrada ao soar do apito.
Não demorou muito. Antes da metade do primeiro tempo, o PDF já passeava em campo. Desta vez, o placar inicial de 2x0 não acordou o time adversário, só abriu espaço para mais gols. O placar final do jogo foi de um incrível 8x1, chocolate bem aplicado, com competência na marcação e força no ataque. O PDF sagrou-se campeão da Copa Paulo Francis pela primeira vez, e comemorou bastante. Veja os cinco gols marcados no segundo tempo do jogo:
Como toda competição, a CPF também premia os melhores jogadores e os times campeões. Entretanto, como já dito, bom humor é um dos combustíveis desse evento, e premiações como a de Muso e Musa da Copa, além da polêmica medalha de “chiliquento” dão o tom na cerimônia de encerramento. Além disso, em referência à comunidade acadêmica, onde os futuros jornalistas aprendem o que põem em prática no blog, todo ano há uma homenagem também a um professor do Departamento de Comunicação da UFPE. Neste ano, o nome escolhido foi o do professor José Mário Austragésilo, Chefe do Departamento, que também compareceu à final e à cerimônia de encerramento.
Durante os seis sábados de realização da Copa, os alunos de Jornalismo põem de lado o estresse diário que enfrentam nos estágios e na faculdade, e entregam-se de corpo e alma a esse que já é um ritual de sete anos de duração. Iniciativa que deveria ser seguida, não à risca, por muitos outros cursos da UFPE, pois nada mais construtivo do que aliar obrigação e devoção, ainda mais quando isso garante a união de futuros concorrentes do mercado de trabalho.
*Créditos à organização da CPF, por disponibilizar fotos do arquivo da CPF
**Esta reportagem foi um trabalho realizado para a cadeira Tópicos em Jornalismo Digital, ministrada pelo professor Diógenes de Luna, no curso de Jornalismo da UFPE
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sábado, 9 de maio de 2009
Miniconto
Do amor, da liberdade
Era de beleza inconteste. Alta, feição decidida, linda. É daquelas por que vale a pena qualquer esforço. Não se viam muito, mas sempre que podia ele subia os mais de 7000 km até a residência dela, e ia ao seu encontro, fazer o que sempre faziam, simplesmente contemplar. Ele contemplava ela, que contemplava o céu. Sempre dizia que ela parecia querer alcançá-lo. Ela não sabia o quanto significava para ele. Acima de tudo, era a representação máxima de seu ideal de vida. Ele a via como uma rainha, de coroa e tudo, uma santa, de deusa do olimpo, vestindo seu manto sagrado e, melhor do que isso, possuía a chama do amor, tinha-na em mãos, era o seu ideal. O seu ideal de liberdade. Eis que certa vez, viajou para outro lugar, não a visitou, mas ia, depois que resolvesse o que tinha para fazer do outro lado do país. "Mas o amor é forte demais", foi o que pensou, quando o avião teve que mudar de rota, completamente, para o lado oposto. Começou a ir em direção a ela, à sua morada. Não acreditava no que via, era ela, podia vê-la lá do alto. Ele pensava, "alcancei o céu, agora vou trazê-lo pra ti." Amou-a e olhou-a até o último instante, até a colisão, até ser privado de amá-la. E ela nunca soube que ele estava neste vôo, nem do seu amor, nem de nada, não podia amar, não era nada a não ser uma estátua em Nova York. Mas se vivo fosse, ele poderia jurar ter visto uma lágrima escorrer da Estátua da Liberdade.
Às vítimas do atentado de 11 de setembro de 2001, que foram privadas de amar em vida, pois homenagens não precisam ser feitas em data certa. Servem para resgatar a vida, e não para relembrar a morte.
Às vítimas do atentado de 11 de setembro de 2001, que foram privadas de amar em vida, pois homenagens não precisam ser feitas em data certa. Servem para resgatar a vida, e não para relembrar a morte.
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quarta-feira, 6 de maio de 2009
Poesia de Gaveta nº 33
O que é que nos falta?
Não, não é sinceridade.
A mim, falta propósito.
Mas se eu nem entendo o que é propósito,
então por que devemos tê-lo?
Por que somos racionais?
Por que somos emocionais?
Por que não instintivos?
Que tipo de virtude é essa que temos de categorizar o mundo
e organizá-lo em nosso universo particular,
se o próprio universo é a representação máxima do caos?
Por que pensar em soluções?
E se eu deixasse levar?
Se eu deixasse que a natureza,
de onde vim,
guiasse o meu ser?
Às vezes,
paro e penso na minha vida.
Ela não me responde.
É por eu não ser racional?
Eu não sei categorizar?
Eu sou instintivo?
Humano, eu sou?
Por que perguntamos?
Vemos e duvidamos.
Somos corruptos,
desafinados,
sem harmonia.
Nada nos parece bom o suficiente,
exceto nós, os donos da dúvida.
...
Chegou a vida, tenho que ir.
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segunda-feira, 4 de maio de 2009
Serviço II
Music for the (smart) mobs
Poucas coisas realmente me tocam. De fato, chorei ao ver alguns filmes, ler certos livros e ouvir umas músicas, mas é bom que fique distinta aqui a diferença entre emocionar e tocar. Já não é tão rotineiro o primeiro caso, de quem fica a cargo filmes como Dançando no Escuro e Em Busca da Terra do Nunca ou livros como uns dois da série Harry Potter. São produções artísticas com muitas cenas voltadas ao ‘eu’, intimistas, que trazem à tona os nossos fantasmas e nos emocionam por perfurar-nos a carne com doses de interpretação, trilha sonora, diálogos bem construídos e uma pitada de talento do autor. Mas jóia rara mesmo é quando isso me toca, ou seja, quando além de tudo, eu vejo a sinceridade da preocupação com o mundo em cada frame, palavra ou acorde.
Eu não chorei ao ver Milk, mas foi um dos filmes mais tocantes que já vi, pois há cenas nele em que fica claro todo o sofrimento dos homossexuais para se afirmar e, mais ainda, a força que uma minoria pode ter, se unida. Um “ninguém” tornar-se líder político por meio da luta pela igualdade de direitos é sinceramente tocante. Imaginem quando o exemplo não está no passado nem nos Estados Unidos? Quando vejo um amigo, hoje, subir ao palco e cantar músicas sinceras sobre o mundo, músicas tocantes. E mais: quando cresce com essas músicas, as burila, criando todo um fluxo comunicativo para a mensagem que quer passar. A Caravana do Delírio, banda de Matheus e companhia, é tocante. À banda na qual acredito, às letras com que me toco, aos músicos com quem me divirto, dedico estas palavras sobre mim, que são muito poucas diante da grandeza das canções da banda. A Caravana é música para as massas, massas inteligentes, massa cinzenta. Música para o cérebro. Para se pensar mesmo. E eu penso que, se alguém se importa, são vocês, amigos. Mais uma vez e sempre, meus parabéns.
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domingo, 26 de abril de 2009
Reintrodução II
Retomando por retomar
Hoje eu tiro a poeira daqui, e coloco debaixo do tapete (que irônico), para não criar expectativas, pois assim posso trazê-la de volta aonde estava sem medo de represálias. Pode ser um pouco egoísta de minha parte, num blog que apoia a colaboratividade, agir assim, sem pensar nos meus leitores. Mas acredito ser mais ainda egocêntrico pensar que posso ser egoísta com eles, uma vez que nem sei da real existência deles, pois nem espero escrever para ninguém mesmo. Pois bem, andei refletindo neste (pleonástico) "tedioso domingo", mas não vou escrever sobre nenhuma das coisas (foram muitas) sobre as quais refleti hoje. É só que a reflexão me leva sempre a caminhos polifurcados, e é normal que me apareçam reflexões de última hora quando estou diante da tela. Uma delas foi sobre o ato de fazer por fazer.
Neste momento, escrevo por escrever. Achei conveniente. Não quero passar nenhuma lição, provê-los de nova informação. Nada disso. Você pode ler por ler também, não tem problema. Não precisas esperar nada daqui. Nem aprender, nem se surpreender. Comente por comentar, faça o típico comentário dispensável, coisa comum, ordinária, humana. Sim, acima de tudo, humana. Não é por instinto, razão ou emoção que fazemos. É por aquilo que é nosso mais precioso bem. Nosso vício. É só para nos comunicar. Necessidade básica exclusiva do ser humano. Fazemos por fazer a fim de comunicar. Assim é que funciona. Dessa forma, volto por voltar. Não aconteceu nada de especial, não vi barata anunciadora de nenhuma revelação, nem estrela cadente passou pelo céu. Voltei porque pensei que voltar seria conveniente, parecia certo. E cá estou. Retomando por retomar, apenas me comunicando.
Neste momento, escrevo por escrever. Achei conveniente. Não quero passar nenhuma lição, provê-los de nova informação. Nada disso. Você pode ler por ler também, não tem problema. Não precisas esperar nada daqui. Nem aprender, nem se surpreender. Comente por comentar, faça o típico comentário dispensável, coisa comum, ordinária, humana. Sim, acima de tudo, humana. Não é por instinto, razão ou emoção que fazemos. É por aquilo que é nosso mais precioso bem. Nosso vício. É só para nos comunicar. Necessidade básica exclusiva do ser humano. Fazemos por fazer a fim de comunicar. Assim é que funciona. Dessa forma, volto por voltar. Não aconteceu nada de especial, não vi barata anunciadora de nenhuma revelação, nem estrela cadente passou pelo céu. Voltei porque pensei que voltar seria conveniente, parecia certo. E cá estou. Retomando por retomar, apenas me comunicando.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
Serviço
Debaixo do tapete
Quando estudamos em cursos de língua inglesa, comumente escutamos mídias em áudio (óbvio) a fim de exercitar um pouco os martelos, as bigornas e os estribos, garantir o bom funcionamento da massa cinzenta, e aperfeiçoar o que, no boletim, vem classificado como Listening. Eu nunca fui bom em escutar as coisas, seja por um não muito refinado filtro para músicas, seja por ser moco mesmo. Imaginem agora a situação para uma língua nova, outro código, palavras que nunca ouvi/li na vida. Pois é. Listening era meu carma no inglês. Não posso reclamar das notas, geralmente muito acima da média, ainda que abaixo das outras, mas na hora do “vamo ver”, ficava difícil distinguir se o sujeito da fita tinha um gato ou um cachorro. Como eu já disse, nos exercícios eu me dava até bem, afinal geralmente eram muito fáceis. O mais difícil que tínhamos seria o de escutar músicas e ir completando as letras com — nos primeiros níveis — palavras e (nos avançados) frases. Entretanto, eu, como bom aluno que era, gostava de passar disso, e tentava escutar a música sem olhar para o papel, identificando as palavras. O usual era escutarmos pessoas normais cantando. Um Coldplay aqui, um Greenday ali. Beatles pra lá, The Beach Boys pra cá. Gente que fala inglês normal. Mas eis que o energúmeno do professor inventa de colocar uma tal de Alanis Morissette para tocar. Eu sempre gostei de intérpretes femininos. Mas, considerem minha situação, dessa vez era impossível eu não revoltar-me.
Logo na primeira frase da música eu estilei: “An old maid turned REM.” COMO ASSIM? As próximas três frases me fizeram segurar o papel com força para não olhar. Mais uma frase, onde consegui identificar legal, e aí veio o refrão. Putz! Que música! Não podia perder a oportunidade de “cantar junto” (porque foi só mentalmente) e atirei os olhos ao papel. Mas quem disse que eu conseguia acompanhar? A criatura dividia palavras ao meio só pra efeito sonoro, mudava pronúncias para rimar, fazia o inferno com a língua e eu até cheguei a pensar que nem o professor entendia o que estava acontecendo ali. Ao fim de três rodadas de “one more time, teacher!”, consegui completar a minha letra, e descobri que An old maid turned REM na verdade era An old man turned ninety eight. A música chamava-se Ironic, do CD Jagged Little Pill e infelizmente não achei nada irônico nessa história para dar um toque a mais à retórica do texto, leitor. Então, se não estás a fim de ler um pouco de babação à musa canadense, vai-te.
Isso até pode ser irônico: Pouco tempo depois, meu irmão ganhou um CD de Alanis. A essa época, eu já estava mais familiarizado com algumas músicas dela (apesar de não entender as letras da maioria). Mas não conhecia nenhuma do CD Under Rug Swept, à época, lançamento mais recente da cantora. Achei legal um disco de Alanis lá em casa, assim eu poderia conhecê-la melhor, vez que sempre fui preguiçoso demais para downloads de Internet. Demorou um pouco, mas, um dia, deixei Coldplay de lado e tomei a ponte aérea do Reino Unido para o Canadá. A primeira música era muito boa, a voz dela estava bem potente, o que agitava bastante a pessoa. A segunda, parecia melhor. Muito bem humorada, o que aprecio sempre em qualquer tipo de trabalho artístico. Hands Clean, terceira música do álbum, era o carro-chefe, aquela que todo mundo sabia que se tornaria single. E que inclusive menciona o nome do CD na letra. Não à toa todos esses méritos. A música é primorosa. Voz e melodia em uníssono, causando uma harmonia entre ouvinte e canção que me faz suspirar e relaxar enquanto escrevo e “escuto-a” na minha cabeça. Daí pra frente, foi só empolgação. Todas as músicas. Gostei de todas as músicas do CD. Escutei outras vezes, na esperança de que fosse só uma forte primeira impressão, talvez pouco crítica e... bem, de 2003 até hoje, continuo dizendo: é um dos únicos CDs que escuto com gosto todas as músicas, sem exceção.
No próximo dia 30 de janeiro, Alanis Morissette vem ao Recife tocar no Chevrolet Hall. Ainda não comprei o ingresso, mas pretendo fazê-lo o mais rápido possível. Espero que, além do novo CD (Flavors of Entanglement), ela apresente-se cantando músicas de sucesso dela. E, com um pouco de esperança, do Under Rug Swept, CD de muito pouco sucesso, se comparado aos outros, que a renderam o título de roqueira mais comprada da história.
Logo na primeira frase da música eu estilei: “An old maid turned REM.” COMO ASSIM? As próximas três frases me fizeram segurar o papel com força para não olhar. Mais uma frase, onde consegui identificar legal, e aí veio o refrão. Putz! Que música! Não podia perder a oportunidade de “cantar junto” (porque foi só mentalmente) e atirei os olhos ao papel. Mas quem disse que eu conseguia acompanhar? A criatura dividia palavras ao meio só pra efeito sonoro, mudava pronúncias para rimar, fazia o inferno com a língua e eu até cheguei a pensar que nem o professor entendia o que estava acontecendo ali. Ao fim de três rodadas de “one more time, teacher!”, consegui completar a minha letra, e descobri que An old maid turned REM na verdade era An old man turned ninety eight. A música chamava-se Ironic, do CD Jagged Little Pill e infelizmente não achei nada irônico nessa história para dar um toque a mais à retórica do texto, leitor. Então, se não estás a fim de ler um pouco de babação à musa canadense, vai-te.
Isso até pode ser irônico: Pouco tempo depois, meu irmão ganhou um CD de Alanis. A essa época, eu já estava mais familiarizado com algumas músicas dela (apesar de não entender as letras da maioria). Mas não conhecia nenhuma do CD Under Rug Swept, à época, lançamento mais recente da cantora. Achei legal um disco de Alanis lá em casa, assim eu poderia conhecê-la melhor, vez que sempre fui preguiçoso demais para downloads de Internet. Demorou um pouco, mas, um dia, deixei Coldplay de lado e tomei a ponte aérea do Reino Unido para o Canadá. A primeira música era muito boa, a voz dela estava bem potente, o que agitava bastante a pessoa. A segunda, parecia melhor. Muito bem humorada, o que aprecio sempre em qualquer tipo de trabalho artístico. Hands Clean, terceira música do álbum, era o carro-chefe, aquela que todo mundo sabia que se tornaria single. E que inclusive menciona o nome do CD na letra. Não à toa todos esses méritos. A música é primorosa. Voz e melodia em uníssono, causando uma harmonia entre ouvinte e canção que me faz suspirar e relaxar enquanto escrevo e “escuto-a” na minha cabeça. Daí pra frente, foi só empolgação. Todas as músicas. Gostei de todas as músicas do CD. Escutei outras vezes, na esperança de que fosse só uma forte primeira impressão, talvez pouco crítica e... bem, de 2003 até hoje, continuo dizendo: é um dos únicos CDs que escuto com gosto todas as músicas, sem exceção.
No próximo dia 30 de janeiro, Alanis Morissette vem ao Recife tocar no Chevrolet Hall. Ainda não comprei o ingresso, mas pretendo fazê-lo o mais rápido possível. Espero que, além do novo CD (Flavors of Entanglement), ela apresente-se cantando músicas de sucesso dela. E, com um pouco de esperança, do Under Rug Swept, CD de muito pouco sucesso, se comparado aos outros, que a renderam o título de roqueira mais comprada da história.
Serviço:
Alanis Morissette – Flavors of Entanglement
Dia: 30 de Janeiro de 2009
Horário: 22h
Local: Chevrolet Hall, Recife, PE, Brasil
Preços: R$ 60,00 (estudante), R$ 120,00 (inteira), R$ 150,00 (camarote vip), 1.500 (camarote 3), 2.000 (camarote 2) e 2.500 (camarote 1)
Informações: +55 (81) 3427.7500
Abraços,
Diogo.
Marcadores: Eu
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
Declaração
Por que uma pessoa de classe média, sem esquema, tem tanta dificuldade para se eleger?
Vou contar um caso…uma cidade chamada Ipubi, no interior, assim como todo interior, tem dois donos, um é dono de metade da população, e um é dono da outra metade. O nome de um dos donos era Valdemar, que foi o único do PFL que votou em mim para Senador, e ficava sempre me ligando.
Como eu fazia rádio no interior, eu falava em uma rádio de Araripina, que era muito ouvida em Ipubi, e um dia eu fui a Ouricuri, e tinha uma pessoa que queria falar comigo. Um cidadão muito humilde, chamado Joaquim, que vendia laranja na feira de Ipubi, para você ver a modéstia deste cidadão. Ele disse que me ouvia sempre, e que tinha quatro galinhas, e que apurou o dinheiro para pagar a Kombi só para ir lá me conhecer e me dar um abraço.
Fiquei tão comovido que disse que eu pagava a viagem dele. Ele disse que não aceitava, que tinha ido lá porque me admirava. No dia da eleição, eu estava em casa, tocou o telefone, e era Valdemar de Ipubi.
Ele disse…”Olha, está aqui uma pessoa minha, Joaquim, e eu fui entregar uma chapa a ele, e disse que tinha vontade de votar no senhor, e me pedia permissão prá votar. Então como eu gosto do senhor, ele está aqui na minha frente, e eu disse que no senhor ele tinha direito de votar”. Então ele passou o telefone para Joaquim, e este muito constrangido, disse que como o compadre Valdemar tinha dito que poderia votar em mim, ele votaria.
Resultado…eu tive 1 voto em Ipubi, que foi de Joaquim. Meu amigo Armando Monteiro, que nunca foi lá e nem sabe onde é, teve 3.500 votos. Inocêncio teve os 3.000 do outro lado, do outro chefe político. Eu tive 1 porque Valdemar permitiu.
Então você vê que eleição em certas regiões é isso. Você se acerta com o chefe local, ele diz…”aqui o senhor vai ter entre 2.500 e 2.700 votos. É tanto, e não existe cheque, é dinheiro batido”. Então eleição proporcional é isso. Comprou, pagou, se elege. Não comprou, não pagou, não se elege.
*Resposta do ex-Deputado Federal e um dos mais atuantes ex-membros do PMDB, Maurílio Ferreira Lima, a pergunta feita pelo Professor-blogueiro Pierre Lucena, em entrevista para o blog Acerto de Contas.
Como eu fazia rádio no interior, eu falava em uma rádio de Araripina, que era muito ouvida em Ipubi, e um dia eu fui a Ouricuri, e tinha uma pessoa que queria falar comigo. Um cidadão muito humilde, chamado Joaquim, que vendia laranja na feira de Ipubi, para você ver a modéstia deste cidadão. Ele disse que me ouvia sempre, e que tinha quatro galinhas, e que apurou o dinheiro para pagar a Kombi só para ir lá me conhecer e me dar um abraço.
Fiquei tão comovido que disse que eu pagava a viagem dele. Ele disse que não aceitava, que tinha ido lá porque me admirava. No dia da eleição, eu estava em casa, tocou o telefone, e era Valdemar de Ipubi.
Ele disse…”Olha, está aqui uma pessoa minha, Joaquim, e eu fui entregar uma chapa a ele, e disse que tinha vontade de votar no senhor, e me pedia permissão prá votar. Então como eu gosto do senhor, ele está aqui na minha frente, e eu disse que no senhor ele tinha direito de votar”. Então ele passou o telefone para Joaquim, e este muito constrangido, disse que como o compadre Valdemar tinha dito que poderia votar em mim, ele votaria.
Resultado…eu tive 1 voto em Ipubi, que foi de Joaquim. Meu amigo Armando Monteiro, que nunca foi lá e nem sabe onde é, teve 3.500 votos. Inocêncio teve os 3.000 do outro lado, do outro chefe político. Eu tive 1 porque Valdemar permitiu.
Então você vê que eleição em certas regiões é isso. Você se acerta com o chefe local, ele diz…”aqui o senhor vai ter entre 2.500 e 2.700 votos. É tanto, e não existe cheque, é dinheiro batido”. Então eleição proporcional é isso. Comprou, pagou, se elege. Não comprou, não pagou, não se elege.
*Resposta do ex-Deputado Federal e um dos mais atuantes ex-membros do PMDB, Maurílio Ferreira Lima, a pergunta feita pelo Professor-blogueiro Pierre Lucena, em entrevista para o blog Acerto de Contas.
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segunda-feira, 24 de novembro de 2008
Jornalismo de Gaveta II
Pecado Divino
É sabido que a essência do ser humano ou o folclore cristão consta da existência de sete inglórias, sete pecados costumeiramente cometidos por nós, incautos, mas que acaba sendo motivo de condenação por nossos iguais. Um deles, a ira, é tido como único pecado cometido por Deus e seu filho, Jesus. Para o primeiro, os exemplos são o grande dilúvio, a expulsão de Adão e Eva do paraíso e a destruição das cidades de Sodoma e Gomorra. Do segundo, pode-se falar da sua revolta contra os mercadores que vendiam produtos nos pátios dos templos cristãos. Bem, exemplos à parte, a ira é um pecado peculiar. E foi dela que ficou encarregado o escritor e roteirista de cinema José Roberto Torero, ao escrever para a coleção Plenos Pecados, da editora Objetiva, que tinha como objetivo contemplar cada um dos sete pecados em romances de autores diferentes.
Segundo livro da série, Xadrez, truco e outras guerras mostra com maestria a melhor metáfora para falar da ira: a guerra. Torero explica cada detalhe do que talvez seja a maior manifestação desse pecado, também pela quantidade de pessoas com ira, mas muito pela intensidade da ira assassina sem remorsos — para a maioria — que se apossa dos combatentes. Permeada por muita ironia e sarcasmo, a obra questiona valores do ser humano, como honra, glória, justiça, bondade e igualdade, diante de uma situação de conflito como essa. Além disso, nos leva a pensar na política, nas artimanhas que os mais poderosos articulam para justificar uma guerra, motivada, segundo Torero, nunca por ira, mas por diversos outros motivos, sendo a ira, segundo um dos personagens, “coisa para soldados, nunca para comandantes”.
A arquitetura de José Roberto Torero, na verdade, é bem maior do que parece, analisando os elementos da história mais minuciosamente. Primeiramente, a guerra do enredo se baseia, nada mais, nada menos, do que na Guerra do Paraguai. Uma das causas é a invasão de uma região do país do Rei por parte do exército do país do Ditador. Ademais, o país do Diplomata, conselheiro do Rei, tinha interesse na guerra, pois lucraria muito com a venda de armas para o país do Rei. Na história da Guerra do Paraguai, o “estopim” que desencadeou a batalha foi a invasão do Brasil — ocorrida na então província do Mato Grosso — por parte do Paraguai. O Brasil, na época, era comandado por D. Pedro II (o Rei) e via em Solano Lopez, líder paraguaio, um ditador frio e sanguinário, enquanto era um salvador para o povo do Paraguai (no livro, o Ditador se apresenta como Salvador ao se encontrar com soldados do outro país).
Agravando ainda mais a inteligência da obra de Torero, temos os personagens. Não por acaso, são sete principais. E nos sete primeiros capítulos eles são apresentados. Mas por que “não por acaso, são sete”? Porque Torero, não satisfeito em tratar, em sua obra, de um dos sete pecados somente, resolveu estender-se a todos os outros. Então, assim são os sete personagens e seus respectivos pecados: o Rei (avareza), o General (soberba), o Coronel (inveja), o Capitão (luxúria), o Tenente (preguiça), o Sargento (gula) e, finalmente, protagonista do livro, o Soldado (ira).
Ao longo da história, o autor conta a guerra a partir dos sete personagens e pecados, mas o foco é realmente no Soldado, e, por conseqüência, na ira. Seja no caso da ira transformada em cólera, e do cólera — a doença — provocando a ira. Seja a ira pela gula das moscas que, em certo ponto, infestam a campanha, atacando a comida dos soldados no que o autor chamou de o caso do Banquete. A ira é pecaminosa, pois leva à morte e aos questionamentos do que é o ser humano e quais direitos ele tem de matar um outro. Mas também é divina, nas palavras do Capelão, quando usada contra “as mil faces do mal”. Acima de tudo, e mais impressionante no livro, é a ira pelo amor. Durante a trama, o Soldado conhece a Mulher das Cartas e por ela se apaixona. E é por ela que ele luta, por ela que ele torce para a guerra não acabar. Principalmente, é por ela que ele ira-se.
No fim das contas, José Roberto Torero consegue “vender seu peixe”. Aquele que lê Xadrez, truco e outras guerras (nome dado devido ao livro começar com uma dúvida entre o jogo de truco e o de xadrez a ser jogado pelo Rei contra o diplomata) termina o livro quase com um sentimento de perdão pelo pecado da ira, e começa a questionar-se: seria este realmente um pecado, uma virtude, ou ambos?
Segundo livro da série, Xadrez, truco e outras guerras mostra com maestria a melhor metáfora para falar da ira: a guerra. Torero explica cada detalhe do que talvez seja a maior manifestação desse pecado, também pela quantidade de pessoas com ira, mas muito pela intensidade da ira assassina sem remorsos — para a maioria — que se apossa dos combatentes. Permeada por muita ironia e sarcasmo, a obra questiona valores do ser humano, como honra, glória, justiça, bondade e igualdade, diante de uma situação de conflito como essa. Além disso, nos leva a pensar na política, nas artimanhas que os mais poderosos articulam para justificar uma guerra, motivada, segundo Torero, nunca por ira, mas por diversos outros motivos, sendo a ira, segundo um dos personagens, “coisa para soldados, nunca para comandantes”.
A arquitetura de José Roberto Torero, na verdade, é bem maior do que parece, analisando os elementos da história mais minuciosamente. Primeiramente, a guerra do enredo se baseia, nada mais, nada menos, do que na Guerra do Paraguai. Uma das causas é a invasão de uma região do país do Rei por parte do exército do país do Ditador. Ademais, o país do Diplomata, conselheiro do Rei, tinha interesse na guerra, pois lucraria muito com a venda de armas para o país do Rei. Na história da Guerra do Paraguai, o “estopim” que desencadeou a batalha foi a invasão do Brasil — ocorrida na então província do Mato Grosso — por parte do Paraguai. O Brasil, na época, era comandado por D. Pedro II (o Rei) e via em Solano Lopez, líder paraguaio, um ditador frio e sanguinário, enquanto era um salvador para o povo do Paraguai (no livro, o Ditador se apresenta como Salvador ao se encontrar com soldados do outro país).
Agravando ainda mais a inteligência da obra de Torero, temos os personagens. Não por acaso, são sete principais. E nos sete primeiros capítulos eles são apresentados. Mas por que “não por acaso, são sete”? Porque Torero, não satisfeito em tratar, em sua obra, de um dos sete pecados somente, resolveu estender-se a todos os outros. Então, assim são os sete personagens e seus respectivos pecados: o Rei (avareza), o General (soberba), o Coronel (inveja), o Capitão (luxúria), o Tenente (preguiça), o Sargento (gula) e, finalmente, protagonista do livro, o Soldado (ira).
Ao longo da história, o autor conta a guerra a partir dos sete personagens e pecados, mas o foco é realmente no Soldado, e, por conseqüência, na ira. Seja no caso da ira transformada em cólera, e do cólera — a doença — provocando a ira. Seja a ira pela gula das moscas que, em certo ponto, infestam a campanha, atacando a comida dos soldados no que o autor chamou de o caso do Banquete. A ira é pecaminosa, pois leva à morte e aos questionamentos do que é o ser humano e quais direitos ele tem de matar um outro. Mas também é divina, nas palavras do Capelão, quando usada contra “as mil faces do mal”. Acima de tudo, e mais impressionante no livro, é a ira pelo amor. Durante a trama, o Soldado conhece a Mulher das Cartas e por ela se apaixona. E é por ela que ele luta, por ela que ele torce para a guerra não acabar. Principalmente, é por ela que ele ira-se.
No fim das contas, José Roberto Torero consegue “vender seu peixe”. Aquele que lê Xadrez, truco e outras guerras (nome dado devido ao livro começar com uma dúvida entre o jogo de truco e o de xadrez a ser jogado pelo Rei contra o diplomata) termina o livro quase com um sentimento de perdão pelo pecado da ira, e começa a questionar-se: seria este realmente um pecado, uma virtude, ou ambos?
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quarta-feira, 22 de outubro de 2008
Jornalismo de Gaveta I
A função contemporânea do campo jornalístico
Na primeira aula da cadeira de Introdução ao Jornalismo, o professor da disciplina perguntou aos alunos qual era a visão deles acerca do jornalismo, tanto na sua prática, como na sua essência. À época, respondi irresponsavelmente uma “qualquer coisa” pessimista, mais a fim de demonstrar toda a minha desilusão juvenil do que de responder à pergunta do mestre. Acredito que, alguns meses depois, possa responder tal pergunta de forma menos irresponsável e, sem dúvida, mais satisfatória (para ambos os lados). Antes, porém, peço que se tenha paciência, pois se faz necessário todo um embasamento prévio à resposta tão almejada, ou seria apenas mais uma aleatoriedade.
Quando o jornalismo estava em suas raízes, e os meios de comunicação se aprimoravam, o filósofo Walter Benjamin falou sobre potencialidade. Apesar da aparente crítica à forma como os meios mais evoluídos reproduzem a arte de forma fria, exaurindo sua “aura”, Benjamin era muito otimista com relação à sua capacidade “democratizadora”. E cabia ao jornalismo essa função. Seria, para Benjamin, o difusor da arte, da notícia, das verdades, da produção cultural em geral. Para alguns, o filósofo alemão estava redondamente enganado. Fato é que, hoje, o jornalismo não é tão parecido com aquele idealizado por Benjamin. Pierre Bourdieu, um aclamado sociólogo francês, nos fala da influência que o campo jornalismo (seus mecanismos, na verdade) exercem sobre a produção cultural. Bourdieu assemelha-se mais a Theodor Adorno, tutor e companheiro de Benjamin, ao inserir o campo jornalístico numa “lógica de mercado”. Ambos concordam ao notar que diferentes jornais se parecem cada vez mais uns com os outros. Isso por causa de uma concorrência que leva os jornalistas todos a escreverem sobre as mesmas coisas, porém cada um criticando o outro, restringindo assim a diversidade de notícias. Porém, a crítica de Adorno a um jornalismo oportunista e manipulador da massa difere um pouco da visão “bourdieuriana”, que dá um tom um pouco (e só um pouco mesmo) mais inocente ao jornalismo, coloca o jornalismo numa posição de dependente do mercado – e por isso tão irresponsável.
Bem, o jornalismo, sujeito à lógica mercantil como é, não poderia deixar de usar seu grande poder de influência para fins lucrativos. E para isso, interfere sem a menor cerimônia em todos os campos de produção cultural, controlando-os, manipulando-os. Nesse âmbito, o campo artístico é uma das grandes vítimas. O campo político também é de suma importância, porém chamo atenção para uma questão bastante discutida nas Artes. O conceito de autonomia. Antes bastante essencialista, esse campo hoje não pode mais se enclausurar em ateliers e proclamar-se autônomo e elitista. E, voltando a Benjamin, isso tudo se deve basicamente à evolução dos meios de comunicação e ao surgimento – e crescimento – do campo jornalístico.
No campo político isso também é perceptível. Hoje, o jornalismo consegue, sim, através de sua influência, frustrar os planos de políticos de qualquer lado que for. Porém, mais do que isso, ele é capaz de fazer valer a opinião da maioria, de obrigar a política, através do povo, a “tomar jeito”. A pesquisa de opinião, por exemplo, quando não manipulada, é uma manifestação do potencial democrático do jornalismo. E quando é expressiva, quando surte efeito, uma representação da democracia no país.
Então, respondendo à pergunta que fiquei devendo desde o primeiro dia de aula, em minha opinião o jornalismo tem hoje por função, para o bem ou para o mal, democratizar o acesso à produção cultural. Visando o lucro ou não, isso é um ponto positivo do campo. Porém, fica aqui minha crítica à forma como é praticado o jornalismo em alguns lugares. Irresponsável ao cuspir notícias falaciosas, estapafúrdio ao se corromper em troca de lucro. E (fica a crítica também) àqueles jornalistas que, em nome de sua vaidade, recusam-se a denunciar toda sujeira em que pisam todo dia.
Quando o jornalismo estava em suas raízes, e os meios de comunicação se aprimoravam, o filósofo Walter Benjamin falou sobre potencialidade. Apesar da aparente crítica à forma como os meios mais evoluídos reproduzem a arte de forma fria, exaurindo sua “aura”, Benjamin era muito otimista com relação à sua capacidade “democratizadora”. E cabia ao jornalismo essa função. Seria, para Benjamin, o difusor da arte, da notícia, das verdades, da produção cultural em geral. Para alguns, o filósofo alemão estava redondamente enganado. Fato é que, hoje, o jornalismo não é tão parecido com aquele idealizado por Benjamin. Pierre Bourdieu, um aclamado sociólogo francês, nos fala da influência que o campo jornalismo (seus mecanismos, na verdade) exercem sobre a produção cultural. Bourdieu assemelha-se mais a Theodor Adorno, tutor e companheiro de Benjamin, ao inserir o campo jornalístico numa “lógica de mercado”. Ambos concordam ao notar que diferentes jornais se parecem cada vez mais uns com os outros. Isso por causa de uma concorrência que leva os jornalistas todos a escreverem sobre as mesmas coisas, porém cada um criticando o outro, restringindo assim a diversidade de notícias. Porém, a crítica de Adorno a um jornalismo oportunista e manipulador da massa difere um pouco da visão “bourdieuriana”, que dá um tom um pouco (e só um pouco mesmo) mais inocente ao jornalismo, coloca o jornalismo numa posição de dependente do mercado – e por isso tão irresponsável.
Bem, o jornalismo, sujeito à lógica mercantil como é, não poderia deixar de usar seu grande poder de influência para fins lucrativos. E para isso, interfere sem a menor cerimônia em todos os campos de produção cultural, controlando-os, manipulando-os. Nesse âmbito, o campo artístico é uma das grandes vítimas. O campo político também é de suma importância, porém chamo atenção para uma questão bastante discutida nas Artes. O conceito de autonomia. Antes bastante essencialista, esse campo hoje não pode mais se enclausurar em ateliers e proclamar-se autônomo e elitista. E, voltando a Benjamin, isso tudo se deve basicamente à evolução dos meios de comunicação e ao surgimento – e crescimento – do campo jornalístico.
No campo político isso também é perceptível. Hoje, o jornalismo consegue, sim, através de sua influência, frustrar os planos de políticos de qualquer lado que for. Porém, mais do que isso, ele é capaz de fazer valer a opinião da maioria, de obrigar a política, através do povo, a “tomar jeito”. A pesquisa de opinião, por exemplo, quando não manipulada, é uma manifestação do potencial democrático do jornalismo. E quando é expressiva, quando surte efeito, uma representação da democracia no país.
Então, respondendo à pergunta que fiquei devendo desde o primeiro dia de aula, em minha opinião o jornalismo tem hoje por função, para o bem ou para o mal, democratizar o acesso à produção cultural. Visando o lucro ou não, isso é um ponto positivo do campo. Porém, fica aqui minha crítica à forma como é praticado o jornalismo em alguns lugares. Irresponsável ao cuspir notícias falaciosas, estapafúrdio ao se corromper em troca de lucro. E (fica a crítica também) àqueles jornalistas que, em nome de sua vaidade, recusam-se a denunciar toda sujeira em que pisam todo dia.
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Introdução
O Ato de Ler
Relaxe, você só está diante de um texto. Para lê-lo, deve estar, antes de tudo, com foco. Isso, solte os ombros. As primeiras linhas são um pouco mais lentas mesmo, é a parte de adaptação com o processo de escrita do autor. Depois, com alguma disposição (e uma ajudinha do talento do autor), você vai se acostumar mais fácil. Ache sua posição, não dê atenção ao som que a cadeira faz quando você se mexe. Sei que ler ao computador é mais difícil. Todas essas janelas piscantes e coloridas aí abaixo competem com as pequenas, fracas e insossas palavras diante de você. Mas acredite, o desafio maior está aqui, e vencê-lo dará um prazer inigualável a você. Ok, agora você parece mais focado, está querendo saber que diabos é esse desafio, certo? Eu, como escritor, poderia fazer um suspense e não dizer logo de cara, ou poderia dizer agora mesmo, poderia inventar outra história, sem desafio algum, e fazê-lo esquecer dessa: tenho o leitor nas mãos. Não! Não! Espere, sei que é o contrário, você tem o texto em mãos e olhos, pode finalizá-lo agora e ir se dedicar a outras coisas se quiser. Aquilo ali acima foi um recurso provocativo. Nós, escritores, subordinados a vocês, temos que confundi-lo a fim de envolvê-lo e, só então, esclarecê-lo.
Bem, então vamos mais diretamente ao assunto, certo? Vamos, porque eu ainda vou a ele também, escrevo à medida que você lê. Se você ainda não leu, não foi escrito. Escreve-se para quem lê. É dependência mesmo. Por isso alguns escritores são um tanto “enrolões”. Na verdade, é pura carência. Não saia agora, vou contar um causo então, não é um causo que você quer? Uma história, uma experiência? Eu conto. Acho impressionante como há pessoas que conseguem ler em situações totalmente adversas. Lembro-me do meu irmão. Durante o recreio, no colégio, juntavam-se as séries todas do colégio no pátio e tome a conversar, escutar a rádio do colégio, agüentar a berradeira dos mais novos ou dos mais exaltados. A quadra ficava ao lado do pátio, então ia pra ele também todo o barulho do futebol de trinta (variação do futebol, onde trinta pessoas jogam — todas contra todas, só pode ser — a fim de marcar um gol — em qualquer barra). Em meio a tudo isso, sentado, com o livro Xadrez, truco e outras guerras, de José Roberto Torero, está meu irmão, lendo. Lendo sem a mínima desconcentração. Eu e uns amigos, ao redor dele, falando muito alto; o rádio me incomodava porque competia comigo, e meu irmão impassível. Impressionante leitor que ele é, respeita o texto. Você deveria seguir o exemplo dele. Calma, não é uma repreensão, mas uma sugestão, talvez você já siga, ou mesmo seja melhor leitor ainda.
O leitor é um sujeito temperamental e vaidoso. É um risco escrever sobre ele, sobre você. Você sempre espera que o texto o surpreenda, mas luta bravamente contra isso. “Sabia!”, fala, ao descobrir o mistério de Assassinato no Expresso do Oriente, de Agatha Christie. Mas ninguém sabia. Não havia como saber. Não importa. O leitor sabe. Ele tem o controle do texto, ele faz o texto. Ele pára de ler neste momento, responde uma pergunta de um amigo (seja na internet, seja o colega do lado) e volta a ler, quebrando o raciocínio do autor. Mas ele é piedoso. Ele volta no texto, retoma o raciocínio, e refresca a felicidade do autor. O ato de ler é mais importante que o de escrever. Porque ler é escrever. Escrever não implica necessariamente em ler. Tem gente que nunca lê o que escreveu — geralmente são os que escrevem mal, permitam-me falar como um leitor por um momento.
E então você vai chegando ao final do texto. Sempre há um ar de poeira baixando, de suspense pré-alívio. Às vezes o final não é feliz, mas e daí? O importante é que o texto acabou. Que alívio, que sensação de liberdade. Feliz é o final que acaba com o texto. Não importa o número de mortes, o volume de lágrimas derramadas, o importante é que a última palavra finalize o texto. É curioso escrever sobre ler, e mais curioso deve ser ler sobre ler. O leitor, no momento final de um texto como este, sente-se um titã, ele é o melhor, o contemplado, o homenageado. Mas, infelizmente para você, no fim das contas, a dependência escritor–leitor não é tão grande, pois daqui pra frente, graças ao escritor, se você seguiu todo o texto do começo ao fim, acaba aqui sua função de leitor nessa história. Pois daqui para baixo só há o branco, o escritor não te deu mais nada, você tem que criar. Agora é sua vez de depender de um leitor. Parabéns, você, agora, também é um escritor.
Bem, então vamos mais diretamente ao assunto, certo? Vamos, porque eu ainda vou a ele também, escrevo à medida que você lê. Se você ainda não leu, não foi escrito. Escreve-se para quem lê. É dependência mesmo. Por isso alguns escritores são um tanto “enrolões”. Na verdade, é pura carência. Não saia agora, vou contar um causo então, não é um causo que você quer? Uma história, uma experiência? Eu conto. Acho impressionante como há pessoas que conseguem ler em situações totalmente adversas. Lembro-me do meu irmão. Durante o recreio, no colégio, juntavam-se as séries todas do colégio no pátio e tome a conversar, escutar a rádio do colégio, agüentar a berradeira dos mais novos ou dos mais exaltados. A quadra ficava ao lado do pátio, então ia pra ele também todo o barulho do futebol de trinta (variação do futebol, onde trinta pessoas jogam — todas contra todas, só pode ser — a fim de marcar um gol — em qualquer barra). Em meio a tudo isso, sentado, com o livro Xadrez, truco e outras guerras, de José Roberto Torero, está meu irmão, lendo. Lendo sem a mínima desconcentração. Eu e uns amigos, ao redor dele, falando muito alto; o rádio me incomodava porque competia comigo, e meu irmão impassível. Impressionante leitor que ele é, respeita o texto. Você deveria seguir o exemplo dele. Calma, não é uma repreensão, mas uma sugestão, talvez você já siga, ou mesmo seja melhor leitor ainda.
O leitor é um sujeito temperamental e vaidoso. É um risco escrever sobre ele, sobre você. Você sempre espera que o texto o surpreenda, mas luta bravamente contra isso. “Sabia!”, fala, ao descobrir o mistério de Assassinato no Expresso do Oriente, de Agatha Christie. Mas ninguém sabia. Não havia como saber. Não importa. O leitor sabe. Ele tem o controle do texto, ele faz o texto. Ele pára de ler neste momento, responde uma pergunta de um amigo (seja na internet, seja o colega do lado) e volta a ler, quebrando o raciocínio do autor. Mas ele é piedoso. Ele volta no texto, retoma o raciocínio, e refresca a felicidade do autor. O ato de ler é mais importante que o de escrever. Porque ler é escrever. Escrever não implica necessariamente em ler. Tem gente que nunca lê o que escreveu — geralmente são os que escrevem mal, permitam-me falar como um leitor por um momento.
E então você vai chegando ao final do texto. Sempre há um ar de poeira baixando, de suspense pré-alívio. Às vezes o final não é feliz, mas e daí? O importante é que o texto acabou. Que alívio, que sensação de liberdade. Feliz é o final que acaba com o texto. Não importa o número de mortes, o volume de lágrimas derramadas, o importante é que a última palavra finalize o texto. É curioso escrever sobre ler, e mais curioso deve ser ler sobre ler. O leitor, no momento final de um texto como este, sente-se um titã, ele é o melhor, o contemplado, o homenageado. Mas, infelizmente para você, no fim das contas, a dependência escritor–leitor não é tão grande, pois daqui pra frente, graças ao escritor, se você seguiu todo o texto do começo ao fim, acaba aqui sua função de leitor nessa história. Pois daqui para baixo só há o branco, o escritor não te deu mais nada, você tem que criar. Agora é sua vez de depender de um leitor. Parabéns, você, agora, também é um escritor.
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